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Menino autista supera desafios por meio da pintura; 'transformou nossas vidas', diz mãe, na Paraíba

Publicado dia 12/08/2019 às 13h51min
Mateus Rosa, de 3 anos, mostrou para os pais que as dificuldades de ser uma criança com Transtorno do Espectro Autista podem ser superados através da arte.

Um lar que ganha espaço para o colorido e divertido mundo da pintura. É assim quase todos os dias na casa de Maria Eduarda e Milton Rosa, quando o filho Mateus, de 3 anos, pede para que os pais organizem o “cantinho” do artista. Com pincel em mãos, tintas e telas em branco, o menino diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista transformou a vida dele e de toda a família, e mostrou que os desafios de ser uma criança autista podem ser superados através da arte.

 

“A arte transformou as nossas vidas. Antes Mateus não interagia, não olhava no olho, não aceitava ser tocado, não falava. Agora, depois da pintura, ele consegue falar, interagir com as outras crianças e obedecer aos comandos necessários para o desenvolvimento dele”, conta a mãe Maria Eduarda.

 

Azul, amarelo, verde e talvez o vermelho. Essas e todas as outras cores podem estar ou não nas telas de Mateus. O menino não tem uma cor favorita para colocar em seus quadros, as escolhas dependem do humor e da criatividade do dia. Mas o resultado é sempre o mesmo: um mundo abstrato e colorido e, quem sabe, uma “chuvinha” de cores como o toque final.

Primeiros sinais

 

Foi aos 2 anos e sete meses de Mateus que Maria Eduarda, de 32 anos, e Milton Rosa, de 36, descobriram que o filho era uma criança com Transtorno do Espectro Autista. “Os primeiros sinais foi quando o Mateus começou a regredir, com 1 ano e 9 meses. A gente percebeu que ele tinha dificuldade de interação social e que em ambientes muito cheios, por exemplo, ele se sentia acuado, tinha medo, não gostava de lugares com muito barulho”, recorda a mãe.

Maria Eduarda lembra que o sinal de alerta veio quando o filho regrediu na fala. “Mateus deixou de falar coisas básicas como mamãe e papai, além disso ele deixou de comer coisas que gostava e que comia normalmente. Depois de alguns meses do diagnóstico, a gente passou por um processo difícil de identificação e aceitação. Então a primeira coisa é não ignorar os sinais, porque muitos pais ficam com medo do diagnóstico, e ficam tentando acreditar que o filho não tem nada”, relata.

 

“Mesmo que você não tenha certeza, é preciso procurar um especialista porque quanto mais cedo descobrir, melhor vai ser a qualidade de vida para a criança e para a família também. É preciso que os pais não limitem a criança e que incentivem as habilidades dela”, diz Maria Eduarda.
 
Os pais de Mateus Rosa organizam um cantinho em casa para que o menino pinte as telas, em Campina Grande — Foto: Érica Ribeiro/G1Os pais de Mateus Rosa organizam um cantinho em casa para que o menino pinte as telas, em Campina Grande — Foto: Érica Ribeiro/G1Os pais de Mateus Rosa organizam um cantinho em casa para que o menino pinte as telas, em Campina Grande — Foto: Érica Ribeiro/G1

Antes do diagnóstico do filho, os pais contam que Mateus já era acompanhado por pediatras, mas até então eles nunca falaram ou deram indícios de que o menino era uma criança com o Transtorno do Espectro Autista.

“Nós fomos em três médicos diferentes pra ter certeza que ele tinha autismo, e os três disseram a mesma coisa: que era um autismo leve, mas que precisava de intervenção, de um esforço da família pra que ele pudesse desenvolver como as outras crianças”, conta a mãe.

 
Mateus, de 3 anos, assina as telas com o nome dele e o desenho da mão  — Foto: Érica Ribeiro/G1Mateus, de 3 anos, assina as telas com o nome dele e o desenho da mão  — Foto: Érica Ribeiro/G1Mateus, de 3 anos, assina as telas com o nome dele e o desenho da mão — Foto: Érica Ribeiro/G1

 

‘Mundo cinza’

 

Maria Eduarda lembra do tempo em que o mundo do filho era “cinza”. A mãe relata o medo que o filho demonstrava por estar perto de outras pessoas. “Shopping era um lugar que ele morria de medo de ir, por ser um lugar cheio de crianças, ele ficava apavorado”.

Algumas coisas precisaram ser feitas dentro de casa. “Teve uma época que eu passei a cortar o cabelo do Mateus em casa, pra não ser uma coisa traumática pra ele. Só depois que ele começou a pintar como terapia foi que a gente conseguiu levar ele pra fazer isso fora de casa”, frisa a mãe.

Os pais destacam que, ao contrário das outras crianças, o filho não gostava de ir às festinhas da escola onde estuda. “Ele não gostava do barulho, da quantidade de pessoas, de se fantasiar, não dançava. Mas, depois que ele começou a pintar, esse ano ele foi até pra festinha do São João, dançou e se divertiu muito”, diz Maria Eduarda.

 
Mateus começou a pintar dois meses após a descoberta de que ele era uma criança autista — Foto: Milton Rosa/Arquivo PessoalMateus começou a pintar dois meses após a descoberta de que ele era uma criança autista — Foto: Milton Rosa/Arquivo PessoalMateus começou a pintar dois meses após a descoberta de que ele era uma criança autista — Foto: Milton Rosa/Arquivo Pessoal

 

Pintura como terapia

 

O mundo colorido na vida de Mateus começou dois meses após a descoberta de que ele era uma criança autista. “Mateus começou a pintar a partir dos 2 anos e 9 meses. A gente levou ele para uma terapeuta ocupacional e ela o estimulou a começar a fazer a pintura de dedos. Mas eu percebi que ele não gostava de pintar no papel, então a gente resolveu comprar as telas e, como terapia, ele começou a pintar em casa”, explica Maria Eduarda.

A mãe ressalta que, agora, ao colorir as telas em branco, o filho já consegue fazer coisas que antes não conseguia. “Depois que o Mateus começou a pintar, eu percebi que ele olhava as tintas e tentava falar o nome das cores. Foi então que iniciou a comunicação verbal dele. Além disso, ele foi perdendo a rejeição que tinha à sujeira, conseguiu pintar não só com os pincéis, mas também com as próprias mãos, melhorando também a coordenação motora”.

 
Mateus foi perdendo a rejeição que tinha à sujeira, conseguiu pintar não só com os pincéis, mas também com as próprias mãos — Foto: Milton Rosa/Arquivo PessoalMateus foi perdendo a rejeição que tinha à sujeira, conseguiu pintar não só com os pincéis, mas também com as próprias mãos — Foto: Milton Rosa/Arquivo PessoalMateus foi perdendo a rejeição que tinha à sujeira, conseguiu pintar não só com os pincéis, mas também com as próprias mãos — Foto: Milton Rosa/Arquivo Pessoal

 

“Ao contrário das outras crianças da idade dele, que geralmente fazem desenhos concretos, Mateus faz rabiscos. Eu acredito que essa é a forma dele de expressão, de percepção do mundo, e acaba sempre num quadro lindo de olhar, que a gente sempre atribui a um momento das nossas vidas”, afirma Maria Eduarda.

 

A mãe fala sobre a reação das pessoas ao verem as telas. “Quando as pessoas olham os quadros de Mateus, algumas não acreditam que são feitos por ele, principalmente por essas ‘gotinhas’ que já virou uma marca das telas dele. Mas isso foi algum tempo depois dele ter começado a pintar, quando ele encheu um vasinho com buraquinhos de tinta e fez uma ‘chuvinha’ de cores sobre as telas”.

 
Mateus Rosa, de 3 anos, diagnosticado com autismo leve, hoje é artista plástico, na PB — Foto: Érica Ribeiro/G1 Fonte: Por Érica Ribeiro*, G1 PB