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Feminicídio

Publicado dia 19/06/2019 às 12h17min
Matadores de Mulheres

Eles são brancos, negros, jovens, adultos, coroas, ricos, pobres, remediados, assalariados, pais de família, cidadãos ‘de bem’. A grande maioria sem antecedentes criminais, pouquíssimos com histórico de doença mental. Os agressores de mulheres não são monstros, não são loucos. São homens comuns. E é aí que mora o perigo.

A maioria não enxerga a agressão que comete como crime. “Acham que só é violência quando sai sangue, dizem que a lei avalia o ato, não o contexto, têm uma visão pobre de masculinidade. Para eles, ser homem é ser dominador, esse é o homem que ele foi ensinado a ser. Quando sente seu poder ameaçado, reage com violência”, explica  Tales Furtado Mistura, principal coordenador do grupo Masculinidade, criado em 2006, ano da aprovação da Lei Maria da Penha, para promover encontros para ressocialização de homens acusados de violência doméstica ou de gênero.

As pessoas ainda acham. Mais do que isso: não conseguem ver o companheiro ou familiar direto como alguém capaz de cometer um crime contra a mulher, acreditam que este homem é alguém que se descontrolou ou que foi provocado e reagiu.

“Muita gente acha que o autor da violência doméstica ficou louco, não entende como aquele homem de bem, réu primário, bons antecedentes, educado, trabalhador, pode ser um agressor brutal ou um assassino”, ressalta a promotora Valéria Scarance, do núcleo de gênero do Ministério Público de São Paulo, coordenadora da pesquisa ‘Raio X do Feminicídio em São Paulo’.

“É preciso derrubar o mito de que o feminicida é louco. Não é. Os casos envolvendo homens com problemas psiquiátricos são ínfimos. A grande massa de agressores e assassinos de mulheres leva uma vida socialmente normal. O feminicídio é um crime de ódio. Há um verdadeiro extermínio de mulheres no Brasil”, ressalta a promotora Valéria Scarance, do núcleo de gênero do Ministério Público de São Paulo, coordenadora da pesquisa ‘Raio X do Feminicídio em São Paulo’.

Os números confirmam. Segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 4,6 milhões de mulheres sofreram agressão física no último ano. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o quinto país em número de feminicídios. Aqui, uma mulher é morta a cada duas horas.

O levantamento, os dados sempre apontam para um massacre de mulheres.

Para Raquel Kobashi Gallinati, delegada de polícia desde 2012 e presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, não existe justificativa para o injustificável. “Qual é a causa daquele que pratica o latrocínio, sequestro, feminicídio? Buscar motivo é uma forma de justificar a conduta. Não existe razão para um crime”, defende.

 

Mas é preciso compreender o que leva esse homem comum a agredir e matar mulheres. E a resposta aponta para o óbvio: machismo mata. 

“A violência é a ausência de recurso. Se esse homem falasse, chorasse, expusesse sua angústia, teria outra experiência de masculinidade. Mas ele não pensa a respeito, acredita que tem de dominar a mulher e passa para o ato para recuperar esse poder”, explica Tales Furtado Mistura, do grupo Masculinidade.

Para a delegada Raquel Kobashi Gallinati, há um padrão de violência de gênero contra elas em todo o país, resultado de valores machistas profundamente arraigados na sociedade brasileira. “Há um ambiente social propício para essa epidemia de feminicídios”, analisa. 

A violência contra a mulher praticada por homens vai muito além de problemas criminais. “Está ligada a uma cultura patriarcal em que as mulheres são objetificadas. Neste sentido, os homens acham natural a situação de agredir uma mulher. Na cabeça do agressor, o que ele faz não é tão grave – falta conscientização. Acham que sairão impunes”, acredita a delegada.

 

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Segundo o levantamento do Instituto Avon, os dados apontam para um enorme paradoxo: 87% dos entrevistados, homens e mulheres, reconhecem que o machismo existe, mas apenas 24% se consideram machistas. “Eles não enxergam o próprio machismo. A maioria, no entanto, acredita que poderia melhorar a postura, mas teme a reprovação dos outros homens”, relata Daniela.

A solução para reduzir o machismo, para 85% dos participantes da pesquisa, é educar o filho para respeitar as mulheres. “O problema é que não podemos pular uma geração, é preciso ensinar o pai a rever as questões de gênero”, alerta.

O feminicídio é o desfecho extremo de um processo de abuso e violência.

No começo, explica a psicóloga Marilene Kehdi, parece um ciúme natural, ele age como um homem apaixonado, atencioso, e a manipulação é implícita. “Ele diz que não gosta muito de determinados comportamentos, faz comentários sobre roupas, amizades, trabalho, mas a pessoa vai se apaixonando por aquele que considera sua alma gêmea”, diz Marilene.

Com o tempo, o abusador vai impondo limites, “com essa roupa você não vai sair”, tem horário para chegar em casa, “não quero você falando ao celular com ninguém”, “só vai se eu for”, tira o celular da pessoa, dá um aparelho para que só fale com ele. O controle começa a ficar total e absoluto.

 

“O abusador gera o afastamento, inclusive físico e sexual, mas não compreende isso e passa fantasiar traições, pois acredita que a vida de qualquer mulher tem de girar em torno de homem”, explica a promotora Valéria Scarance, do núcleo de gênero do Ministério Público de São Paulo. “O feminicida sempre busca explicação na conduta da mulher, jamais assume que é o responsável.”

Se ela pede a separação, a violência explode.

“Feminicídio é um crime praticado, em regra, por alguém do convívio da mulher, dentro de casa ou em locais onde ela costuma estar, situações que configuram uma ‘vantagem’ do agressor em relação às vítimas”, diz a promotora Valéria Scarance.

“Álcool e drogas são fatores de risco, que potencializam a agressão e tiram os freios inibitórios, mas o principal motivo das mortes é a separação ou o pedido de rompimento não aceito por parte do agressor, seguindo-se os crimes praticados por atos de ciúmes/posse e discussões banais”, reitera a promotora.

O agressor usa instrumentos “caseiros” como facas, ferramentas, materiais de construção ou suas mãos, o que estiver ao seu alcance, para agredir e matar. Além disso, utiliza esses instrumentos com voracidade e repetição de golpes, como se pretendesse “destruir” a mulher. A asfixia está presente como instrumento primário ou secundário em vários casos. A pesquisa demonstrou que em 58% dos casos os agressores usaram arma branca/faca.

“Eles praticam o crime com muito ódio, com muita raiva, por isso dizemos que são atos de extermínio, porque há repetição de golpes, não é simplesmente uma morte, é uma morte com dor, diz a promotora Valéria Scarance. “São casos em que as mulheres são mortas com dezenas de facadas, queimadas ou asfixiadas.”

“Há um empobrecimento da visão do que é ser homem, um modelo de masculinidade limitada, segundo o qual ou se é forte ou fraco, ou se é pegador ou gay, eles não têm referenciais mais complexos”, avalia Tales Furtado Mistura, coordenador do grupo Masculinidades.

 

Pelo menos 35% dos entrevistados no levantamento do Instituto Avon afirmaram que pararam de ter atitudes machistas depois que algum homem falou para não agirem mais daquela forma, e 81% concordaram que devem falar com outros homens para que as mulheres não sofram preconceito.

O diálogo entre homens é a base do projeto de ressocialização de agressores do grupo Masculinidades, que funciona como um braço do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

De três em três meses, é feita uma mega-audiência com cerca de 100 homens que foram acusados de agressão, no Foro Central Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, para que conheçam o grupo e possam participar dos encontros.

“A gente faz reuniões às segundas-feiras, das 18h às 20h, com no máximo 15 homens que estão com processo em andamento. Eles não são obrigados a participar”, explica Tales Furtado Mistura, coordenador do  grupo.

A conscientização, recomenda, deveria ser feita desde a infância. Tendo essa base de respeito, compaixão, empatia e amor ao próximo, os homens certamente seriam adultos melhores.

 

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Fonte: Deborah Bresser, do R7